O velho carro de boi – Quem não tem saudades do passado?


carro-de-boi

Artigo 313 do irmão Barbosa Nunes

Escrevo este artigo 313, nas primeiras horas da madrugada de quarta-feira, primeiro dia de fevereiro de 2017. Cheio de notícias da nova estrela da imprensa brasileira, Eike Batista, de Sérgio Cabral e de sua esposa Adriana Ancelmo, amante de joias valiosas, do submundo político e administrativo, do nosso país emocionado com a morte de Teori Zavaski e o preenchimento de sua vaga provocando movimentação efervescente de bastidores, chego ao Supremo Tribunal Federal, buscando com o equilíbrio, sensatez de uma mulher, Carmen Lúcia, presidente da mais alta Corte de nosso país, um melhor encaminhamento.

Corrupção e mais corrupção. Violência de uma bala perdida que tira a vida de uma criança de dois anos, violência de um filho que mata o pai dormindo em seu leito, na cidade de Jataí-GO, advogado Idis Paula de Queiroz, meu contemporâneo da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás.

Neste silêncio, meditando, invade-me com mansidão, a saudade. O que vivemos no presente esqueço por alguns momentos. O presente com tanto desemprego, mais de 12 milhões, está sendo a grande origem das depressões e estresse.

Saudades dos meus pais já falecidos, Juvenal e Alice, do meu Itauçú e do Cerradinho de outrora. Um pouco de nostalgia me faz voltar no tempo, caminhar pela rua do passado, sentindo emoções e percorrendo caminhos saudosos.

Neste momento do meu devaneio emerge lá do fundo do meu baú, um meio de transporte que as crianças e os jovens de hoje, a grande maioria, só conhecem nos museus e nos festivais e desfiles, como acontece todos os anos na romaria de Trindade-GO. Foi construído um ‘carreiródromo” para o desfile, que em 2016, ultrapassou 300 carros de boi. Velho carro de boi que em 1549 já se ouvia o seu cantar nas ruas da iniciante cidade de Salvador. Primeiros carros de boi feitos por carpinteiros e carreiros práticos trazidos de Portugal por Tomé de Souza.

Nos primeiros tempos da colonização além de manter em movimento a indústria açucareira da roça e engenho, do engenho às cidades, o carro de boi mobilizou a maior parte do transporte terrestre durante os séculos XVI e XVII. Transportavam materiais de construção para o interior e voltavam para o litoral carregados com pau-brasil e produtos agrícolas produzidos nas lavouras interioranas. Além dos fretes, conduzia famílias de um povoado para outro e muitas vezes foi carro fúnebre e nesta hora os carreiros precisavam lubrificar os “cocões”, para evitar a “cantoria” em hora inadequada.

Carro de boi de muitas histórias, carro de boi romântico, carro de boi que uniu famílias, carro de boi que transportou o progresso, carro de boi saudoso e cantado, em especial pelos poetas da música sertaneja e música de raiz.

Na página de Jozé Donato, encontramos o lamento no poema “O Carro de Boi”:

“Lá vem o carro de boi, marcando o chão da picada. Lá vem também o carreiro gritando com a boiada. Na frente o candeeiro puxa o penacho na guia, afasta o faroleiro e cuida do rebeldia. No coração do sertão pisava firme a boiada puxando o que já se foi… Com a poeira da estrada. O velho carro de boi passava pelas fazendas, pontes sobre igarapés e só parava na venda… Do velho Inhô Mané e dali seguia a cantar um lamento de baixão que se propagava no ar.

Pelos caminhos do sertão a boiada concentrada, levava a mercadoria e seguia enfeitiçada… obedecendo o seu guia de oficio e obrigação, seguia sempre a boiada, pelo campo ou boqueirão. Pela vila ou povoado o benfeitor da cantoria, era o carro de boi com a doce melodia. Saiba que o carro de boi, ao cantar o seu lamento, transportava o progresso… Pras vidas daquele tempo”.

Nas vozes de Zé Mulato e Cassiano a letra de Antônio Vitor, intitulada “Lembrança de Carreiro”:

“Tarde da vida quando se amontoa os anos, debruçado em desenganos da minha desilusão, fico espiando da janela do presente retalhos de antigamente que me dói como ferrão. Vai boi Penacho, puxa o carro boi Carreiro companheiro de viagem nas quebradas do sertão. Leva essa carga, rasga o barro do caminho, se couber leva um pouquinho de mágoa desse peão. Peão que chora quando vê o sol baixando e um carro de boi cantando seu gemido de paixão. Sai num suspiro meu gemido solitário e desfia o meu rosário em contas de solidão. Sou um carreiro vencido pelo cansaço mas me lembro do chumaço, da chaveia e dos cocão eixo e fueiro, cabeçalho, cheda e mesa velho, tempo de riqueza que virou recordação.

Ainda me lembro recavem e o pigarro, cunha na roda do carro, cambota, arreia e meião, chapa, esse cravo, canzil, brocha e tamboeiro, o ajoujo, a tiradeira, argola, canga e cambão. Vai boi Penacho puxa o carro e vai embora já venceu a minha hora, terminou minha missão, leva essa carga de tristeza que me invade, se couber leva a saudade que me aperta o coração.

Vai boi Penacho puxa o carro boi Carreiro companheiro de viagem nas quebradas do sertão, leva essa carga rasga o barro do caminho se couber leva um pouquinho da mágoa desse peão”.

Tonico e Tinoco, dupla coração do Brasil, compôs e cantou, num linguajar mais puro e simples, “Carro de Boi”.

“Meu véio carro de boi, ouço a pouco apodreceno na chuva sor e sereno sozinho aqui desprezado. Hoje ninguém mais se alembra que ocê abria picada abrindo novas estrada formano vila e povoado. Meu véio carro de boi trabaiaste tantos ano o progresso comandano no transporte do sertão. Hoje é um traste veio, apodreceu no relento no museu do esquecimento, na consciência do patrão.

Meu véio carro de boi a sua cantiga amarga no peso bruto da carga o seu botão rígido. Meu véio carro de boi quantas coisa ocê retrata a estrada e a verde mata e o tempo do meu amor. Meu véio carro de boi é o fim da estrada comprida puxando a carga da vida a mais pesada bagage. E abraçando o cabeçaio o nome dos boi dizeno, o carreiro foi morreno chegou no fim da viagem.”

Sérgio Reis e inúmeros outros intérpretes da música sertaneja, fizeram sucesso com a letra de Serafim Colombo e Luiz Bonan, “Poeira”, que diz na sua primeira estrofe:

“O carro de boi lá vai gemendo lá no estradão, suas grandes rodas fazendo profundas marcas no chão, vai levantando poeira, poeira vermelha, poeira.. Poeira do meu sertão”.

Ao concluir este artigo, passeei pelo passado. E saudades do passado, quem não tem?

 

Barbosa Nunes, advogado, ex–radialista, membro da AGI, delegado de polícia aposentado, professor e maçom do Grande Oriente do Brasil – barbosanunes@terra.com.br

 

Deixe um comentário