JOSÉ FORTUNA: O CANDIDATO E O CAIPIRA


JOSÉ FORTUNA: O CANDIDATO E O CAIPIRA
Artigo Barbosa Nunes

Reverencio neste artigo a história de um dos nomes mais representativos da música sertaneja, música de raiz, que imprimiu em suas mensagens poéticas muita verdade, crítica, romantismo e defesa do meio ambiente. Falo do compositor José Fortuna, nascido na cidade de Itápolis, São Paulo, em 1923, falecendo em novembro de 1983. Compôs sua primeira música em 1942, mas ainda criança em suas andanças com o pai pela lavoura, já escrevia versos com pedaços de madeira, no chão por onde caminhava. Sua primeira música gravada foi ?Moda das flores?, em 1944 e na sua farta e longa produção, compôs e gravou mais de duas mil músicas, algumas com cerca de vinte regravações.

Pode-se afirmar que não há um intérprete no campo da música sertaneja que não tenha gravado obra de José Fortuna. Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo, João Paulo e Daniel, Milionário e José Rico, Tião Carreiro e Pardinho, Sérgio Reis, Roberta Miranda e tantos outros. Tonico e Tinoco gravaram um LP só com músicas de José Fortuna.

Intérpretes da música popular brasileira colocaram as suas vozes nas poesias de José Fortuna, como Agnaldo Timóteo, Ângela Maria, Nara Leão, Caetano Veloso, Maria Betânia, Gal Costa, que regravou ?Índia?, nome dado a um de seus shows no Canecão, Rio de Janeiro. ?Meu primeiro amor? foi regravada por Joana e Fagner.

A música ?Índia?, versão de José Fortuna foi a responsável pela introdução da ?Guarânia? como estilo musical no Brasil, alcançando enorme sucesso nas vozes de Cascatinha e Inhana. Grandes composições foram ?Lembrança?, ?Paineira velha?, ?Berrante de ouro?, ?Cheiro de relva?, ?Rosto molhado?, ?24 horas de amor?, ?O selo de sangue?, ?Esteio de aroeira?, ?A mão do tempo?, ?O ipê e o prisioneiro?, ?Riozinho?, ?Brasil viola? e ?Vai e vem do carreiro?, entre as mais de duas mil. ?Berrante de ouro?, já tem mais de trinta regravações. Em 1979 a Secretaria do Trabalho do Estado de São Paulo oficializou o ?Hino do Trabalhador Brasileiro?, de José Fortuna e Carlos César.

Fato curioso aconteceu em sua vida, quando da inauguração de Brasília, ocasião em que recebeu das mãos do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, um cartão de congratulações e mérito por sua composição ?Sob o céu de Brasília?, que na oportunidade foi considerada o hino inaugural da cidade. Produziu mais de 40 peças teatrais e apaixonado pelo rádio manteve programa em quase todas as emissoras da capital paulista. Recebeu inúmeros troféus, títulos de cidadania, nome de ruas, avenidas e praças, deixando ainda inéditas perto de novecentas obras musicais.

A este poeta, como a quase totalidade dos compositores esquecidos quando anunciados em grandes sucessos em shows, rádio e televisão, fazendo nomes e grandes fortunas para os intérpretes, presto a minha homenagem, transcrevendo este belíssimo poema que muita gente canta e não sabe o nome de seu compositor, ?Terra tombada?.

?É calor de mês de agosto, É meados de estação, Vejo sobras de queimada, E fumaça no espigão, Lavrador tombando terra, Dá de longe a impressão, De losângulos cor de sangue, Desenhados pelo chão.

Terra tombada é promessa, de um futuro que se espelha, No quarto verde dos campos, a grande cama vermelha, Onde o parto das sementes faz brotar de suas covas, O fruto da natureza cheirando a criança nova.

Terra tombada, solo sagrado chão quente, Esperando que a semente, venha lhe cobrir de flor, Também minh’alma, ansiosa espera confiante, Que em meu peito você plante, a semente do amor.

Terra tombada é criança, deitada num berço verde, Com a boca aberta pedindo para o céu matar-lhe a sede, Lá na fonte ao pé da serra, é o seio do sertão, A água leite da terra alimenta a plantação.

O vermelho se faz verde, vem o botão vem a flor, Depois da flor a semente, o pão do trabalhador, Debaixo das folhas mortas, a terra dorme segura, Pois nos dará para o ano, novo parto de fartura?.

Concluo este artigo levando a você meu caro amigo do encontro de todos sábados, a inteligência, a sabedoria e ironia do caipira que somos, do sertanejo que na sua expressão mais pura e sincera se revela perfeitamente no magnífico texto de José Fortuna, intitulado ?O Candidato e o Caipira?, muito oportuno para o momento em que os candidatos se nivelam aos mais simples e de quatro em quatro anos, voltam como amigos, pedindo votos:

– Olá caboclo, bom dia. Então, como vai você?

– Vou indo bem, seu Dotô, mas me descurpe eu dizê eu não conheço o sinhô. Quem tu é, posso sabê?

– Ora, caboclo, nunca ouviu falar do Dr. Pereira? Fui prefeito há muito tempo no Arraial das Caneleiras.

– Ah! Já ouvi falar do seu nome, mas o que eu tô admirado é que eu nunca vi o doutor andando por estes lado e hoje por que razão abandonou o povoado? Prá vir conversá na roça com um caboclo pé-rapado?

– Aí é que está o motivo de eu vir lhe visitar: pensei em você que passa o dia todo a labutar capinando a terra dura sem ninguém lhe auxiliar. Por isso eu deixei a cidade e vim aqui lhe ajudar.

– Mas doutor, tô até envergonhado só de ouvir o senhor falar, o senhor deixou a cidade pra vir aqui me ajudá? O doutor tem as mão fina, num vai se acostumá Doutor, o cabo da enxada vai suas mãos calejá. Bem, mas já que o senhor insiste vou uma enxada lhe arrumá.

– Não, não, não, não é isso que eu quero. Você entendeu mal, o fato é que as eleições vem aí e eu sou um dos candidatos.

– Bem que achei impossível tanta fartura hoje em dia! Quando o milagre é demais até o santo desconfia.

– Mas como eu estava dizendo. Eu quero, se for eleito, lhe auxiliar na assembleia defendendo seus direitos, enquanto você trabalha de sol a sol aqui no eito, eu luto para que a Pátria reconheça o vosso feito. Eu vim pedir o seu voto, que é a arma do cidadão, com ele você me elege e formamos a união para juntos construirmos a grandeza da Nação!

– Muito bonito, Dotô! Sua fala doce tem mé. Mas tu qué sarvá a nação lá na cidade, não é? Mas pegá no guatambu de sol a sol tu num qué! Pois daqui depende a Pátria, das lavoura do sertão. Destes campos, destas matas, dos calos de nossa mão, desses caboclo que luta sem nunca ter recompensa, sem estrada, sem recurso, sem remédio pras doença, e o Dotô se for eleito já qué aumento dobrado desse tar de subsídio que o pobre chama ordenado. E prá que desigualdade se somo igual brasileiro, pois ganha mais tu num dia do que o pobre o ano inteiro?

– Mas é justo que devemos ganhar mais do que vocês, pois o que eu gasto num dia, você não gasta num mês.

– Não gasto porque não tenho, mas bem que eu sei o que é bom! Ah, se eu pudesse possui automove, televisão. Por isso o certo seria vocês num ter ordenado, prá vê quem era no duro, um democrata apurado. Garanto que ninguém mais queria ser deputado, e tem mais, se aqui a seca acabá com as plantação, não aparece ninguém oiá pra nóis no sertão. E por que só vem agora nas época de eleição?

– É porque não temos tempo de abandonar a cidade, ocupado com os problemas que afligem a sociedade.

– Óia outro erro, Dotô, se eu fico sem trabaiá, o patrão me manda embora, não tenho com quem queixá, e vocês lá na assembleia se quizé pode fartá um ano inteiro e recebe ordenado legar. Se um dia o pobre caboclo cansado da dura lida fizé um erro, coitado, tá preso por toda a vida, enquanto vocês, Dotô pode errá a vontade, não tem cadeia porque goza da imunidade. Por isso me dá licença tenho outra ocupação. Meus fios, pega a enxada e vamo entrá no taião, essa conversa, Dotô, num enche barriga, não.

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