A DOCE VOZ DE ÂNGELA MARIA – Artigo 294 do Irmão Barbosa Nunes


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Não sou poeta, não canto e nem executo instrumento qualquer. Na verdade sou um desafinado. Mas ao ler uma poesia eu a interpreto como se fosse o autor. Ao ouvir uma bela voz com ela também canto. Ao som de um instrumento, seja um piano ou uma viola, eu me vejo presente neles. O dom dado por Deus e aperfeiçoado pela competência, de falar pela poesia ou pela música, transfere a estes seres humanos, uma missão abençoada de tocar nos corações. A música alegra a alma. É possível curar e melhorar o ânimo das pessoas através da música. A música move as pessoas. Toca as cordas do coração. Música é remédio para os resfriados do corpo e da alma.

Nos 293 artigos anteriores, falei de música clássica, popular, romântica, sertaneja, folclórica, trazendo detalhes de autores, cantores, instrumentistas e outros. Falei daquela que é considerada a voz perfeita do Brasil. Falei de Cauby Peixoto pouco entes de morres. Vi Cauby formando uma extraordinária dupla com Ângela Maria. Viva e fazendo shows com seus 87 anos. Nascida em 13 de maio de 1929, na cidade de Conceição de Macabu, Rio de Janeiro. Batizada Abelim Maria da Cunha, de família humilde e religiosa. Virou estrela com nome de Ângela Maria.

Há 67 anos ininterruptos brilha com sua voz majestosa e um repertório vastíssimo, inclusive com os clássicos brasileiros. Recebeu de Getúlio Vargas o apelido de “Sapoti”, uma fruta rara, muito doce como mel, originária da América Central.

Em entrevista, Ângela Maria assim contou sobre quando esteve com o presidente Vargas: “Encontrei Getúlio Vargas uma única vez. Lembro como se fosse hoje. Foi numa festa na casa do diretor da Rádio Nacional, Victor Costa. Era uma virada de ano. Tinha muita gente. Alegria e descontração total. Getúlio parecia muito satisfeito. Sorria muito. Eu estava começando a minha carreira depois de muito esforço. Tinha apenas dois anos de estrada. Achei até estranho ter sido convidada. À meia-noite, os artistas fizeram fila para cumprimentar Getúlio. Fiquei por último, a menorzinha”.

Quando, finalmente, cheguei perto dele, Getúlio me disse: “Ah, Sapoti, que alegria te ver”. Fiquei surpresa. Não entendi bem. Amarrei a cara. Ele percebeu que eu não tinha gostado. Quis saber qual era o problema, se eu não estava gostando de alguma coisa. Aí eu falei: “Como vou gostar, o senhor está me chamando de jabuti?”. Getúlio abriu seu sorriso: “Não, não é jabuti, menina. É sapoti. Uma fruta doce como o mel e como a tua voz”. Ali, naquela hora, ele me batizou de Sapoti. Pegou. Quando fui à Europa, os jornais já me chamavam assim. Fiquei Sapoti para sempre”.

Em outra parte da entrevista, disse que enfrentou a resistência da família, demorando a decolar: “Não foi fácil. A minha família achava que todo mundo no meio artístico era depravado. Achava, na verdade, que o meio artístico era uma depravação só. Consegui, com o passar do tempo, provar que meus pais estavam errados. Iniciei minha vida trabalhando duro. Fui operária numa fábrica de lâmpadas e numa fábrica de tecidos. Não recebi tudo de mão beijada, mas, felizmente, encontrei pessoas que me ajudaram a abrir caminho. Eu cantava clássicos que no Brasil quase ninguém ouve, e queria cantar música popular”.

Ao ser questionada sobre a bem sucedida carreira, com a música passando por mudanças, assim pensa: “Ficou diferente, com certeza. Pior, ou melhor? Aí já é bem mais complicado. Vou dizer: acho que ficou pior. A música da minha juventude era outra coisa. Era música de ar, de voz e de grandes letras. Era música com muita poesia. Os grandes compositores — Vinicius de Morais, Dorival Caymmi, Ari Barroso e tantos outros gênios  —  já foram para o andar de cima. Hoje não tem mais isso, não tem mais essa fartura de gente compondo maravilhas. Os clássicos que temos foram feitos por esses compositores do passado. É por isso que no meu novo disco, canto só grandes nomes”

Neste disco, Ângela Maria canta: “Manhã de carnaval”, “Lama”, “Vá, mas volte”, “Amendoim torradinho”, “Nunca”, “Retalhos de cetim”, “Só louco”, “Canção de amor”, “Quase”, “Sábado em Copacabana”, “Codinome Beija-Flor” e “Natal branco”.

Nas músicas de Ângela Maria, muitos dos nossos encontros de sábado sempre lembram de algum fato em sua vida, com muita saudade. E fazendo-lhe esta homenagem, após 37 anos de carreira, cerca de 120 discos gravados, quase 400 músicas, tendo cantado inclusive, em grego, diz que gosta de todas as músicas de sua carreira, mas “Gente humilde” e “Tango pra Teresa”, são especiais.

Quanto as músicas de antes serem tristes demais, declara: “Eram tristes, falavam de amores perdidos, de separações, de romantismo. Eram tristes e bonitas. As músicas realmente lindas ficaram para trás”.

Com Cauby Peixoto, a quem ela chamou de irmão dizendo que o chão lhe sumia aos pés, ao tomar conhecimento de sua morte, fez inúmeros shows e gravou vários discos, entre eles, um intitulado de “Ângela e Cauby”, integrado pelas canções: “Contigo aprendi”, “Matriz ou filial”, “Começaria tudo outra vez”, “Recuerdos de Ypacarai”, “Onde nda você?”, “Tu me acostumaste”, “Eu não existo sem você”, “Boa noite amor”, “Como vai você”, “Meu sem querer”, “Baralho da vida”, “Ave Maria no morro” e “Amor é sempre amor”.

Nesta homenagem, creio de todos nós, em recordação dos nossos bons tempos, deixo os temas estressantes sobre violência, imoralidade e corrupção, para reencontrar a voz suave e doce de uma das maiores cantoras do nosso país, Ângela Maria, com a ilustração de uma foto de sua juventude, linda como a sua voz.

Barbosa Nunes, advogado, ex-radialista, membro da AGI, delegado de polícia aposentado, professor e maçom do Grande Oriente do Brasil – barbosanunes@terra.com.br

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