Quando eu morrer, quero uma fita amarela – A vida curta de Noel Rosa 1


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Artigo 306 do irmão Barbosa Nunes.

Entre os inúmeros compositores e cantores de samba cariocas, com o orgulho de ser Cidadão Honorário do Rio de Janeiro, destaco neste artigo dez nomes eternamente gravados na historia do samba. Cartola, Zé Keti, Bezerra da Silva, Ismael Silva, Mário Lago, João Nogueira, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Beth Carvalho e Noel Rosa.

Noel de Medeiros Rosa, nasceu no bairro carioca de Vila Isabel em 11 de dezembro de 1910 e faleceu em 4 de maio de 1937. Morou durante seus 26 anos e meio de vida na mesma casa, demolida para construção de um prédio residencial que leva seu nome no bairro carioca de Vila Isabel. Sambista, cantor, compositor, bandolinista, violonista e um dos maiores e mais importantes artistas da musica no Brasil.

Em pouco tempo de vida compôs mais de 300 músicas, entre sambas, marchinhas e canções, destacando-se entre elas muitas que já foram cantadas pelos mais conhecidos intérpretes brasileiros, como Chico Buarque, Paulinho da Viola, Araci de Almeida, Francisco Alves, Mário Reis, além de outros. O povo continua a cantar suas músicas. “Adeus”, “Até Amanhã”, “Cem mil réis”, “Filosofia”, “Palpite Infeliz”, “O X do Problema”, “ Pra que Mentir”, “Com que roupa”, “Conversa de Botequim”, “Feitiço da Vila”, “Fita Amarela”, “Feitio de Oração”, “Pastorinhas”, “O Orvalho Vem Caindo”. Ficou conhecido como “O Poeta da Vila”. Ingressou na Faculdade de Medicina em 1930, mas depois de dois anos abandonou o curso. Já estava envolvido com a música e a boemia. Foi homenageado em filmes e peças de teatro.

Em 2010, a escola de samba Unidos da Vila Isabel, apresentou o enredo de carnaval com o samba de autoria de Martinho da Vila, “Noel: A presença do poeta da vila”, cantando na avenida: “Veio ao planeta com os auspícios de um cometa, Naquele ano da Revolta da Chibata, A sua vida foi de notas musicais, Seus lindos sambas animavam carnavais, Brincava em blocos com boêmios e mulatas, Subia morros sem preconceitos sociais. Foi um grande chororô, Quando o gênio descansou, Todo o samba lamentou. Que enorme dissabor, Foi-se o nosso professor”.

Noel Rosa nasceu de um parto muito difícil que incluiu o uso de fórceps pelo médico obstetra, como medida para salvar as vidas da mãe e do bebê. Com desenvolvimento limitado da mandíbula, o que lhe marcou as feições por toda a vida. Adolescente, aprendeu a tocar bandolim de ouvido e tomou gosto pela música. Passou ao violão e muito cedo tornou-se figura conhecida da boemia carioca. Em 1930, já com apenas 20 anos o sucesso chegou com o lançamento de “Com que roupa”, samba bem humorado que sobreviveu décadas e hoje é um clássico do cancioneiro brasileiro. Essa música ele se inspirou quando ia sair com os amigos, a mãe não deixou e escondeu suas roupas, ele, com pressa perguntou: “Com que roupa eu vou?”. Eis sua letra.

“Agora vou mudar minha conduta, Eu vou pra luta pois eu quero me aprumar, Vou tratar você com a força bruta, Pra poder me reabilitar, Pois esta vida não está sopa, E eu pergunto: com que roupa? Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?

Agora eu não ando mais fagueiro, Pois o dinheiro não é fácil de ganhar, Mesmo eu sendo um cabra trapaceiro, Não consigo ter nem pra gastar, Eu já corri de vento em popa

Mas agora com que roupa?Com que roupa que eu vou, Pro samba que você me convidou?

Eu hoje estou pulando como sapo, Pra ver se escapo desta praga de urubu, Já estou coberto de farrapo, Eu vou acabar ficando nu. Meu terno já virou estopa, E eu nem sei mais com que roupa, Com que roupa que eu vou, Pro samba que você me convidou? Com que roupa que eu vou, Pro samba que você me convidou?”

Revelou-se um talentoso cronista do cotidiano, com uma sequência de canções que primam pelo humor e veia crítica. Por Orestes Barbosa considerado “O Rei das Letras”.

Os hábitos boêmios comprometeram irremediavelmente a sua saude, lesionando os dois pulmões, desdobrando-se no mal da tuberculose. Período que foi abalado pelo suicídio do pai, que se enforcou em casa de saude, onde estava internado para tratamento psiquiátrico.

Ao seu sepultamento compareceram muitas personalidades da música e do rádio. Ari Barroso fez um discurso emocionado, homenageando o amigo e parceiro.

Se em aproximadamente 6 anos produziu cerca de 300 músicas, podemos calcular que sua média foi de 50 músicas por ano, 4 por mês. Realmente, um gênio que se vivo estivesse, completaria 110 anos. A ele e ao samba que lhe inspirou, cujo dia comemorativo é 6 de dezembro, nossas homenagens com a transcrição da letra de “Fita Amarela”, em que ele com sua inteligente ironia, já marcava o seu desejo.

“Quando eu morrer, não quero choro nem vela, Quero uma fita amarela gravada com o nome dela, Se existe alma, se há outra encarnação, Eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão. Não quero flores nem coroa com espinho, Só quero choro de flauta, violão e cavaquinho, Estou contente, consolado por saber, Que as morenas tão formosas a terra um dia vai comer. Não tenho herdeiros, não possuo um só vintém, Eu vivi devendo a todos mas não paguei a ninguém, Meus inimigos que hoje falam mal de mim, Vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim”.

Barbosa Nunes, advogado, ex-radialista, membro da AGI, delegado de polícia aposentado, professor e maçom do Grande Oriente do Brasil – barbosanunes@terra.com.br


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